- Introdução
- Meus docinhos,
Estive (de uns tempos para cá) bem mais atenta à escrita alheia
e decidi criar algo que acredito que vá ajudar especialmente aos iniciantes.
Não seria novidade se eu dissesse que a gramática portuguesa-brasileira
é complicada, que torna difícil até nossos adoráveis
professores serem conhecedores de todas as regras, não é? Não
venho dizer que sou "fera" nesse assunto, porque eu me confundo
bastante; mas acho que é importante eu compartilhar o quê eu
aprendi nesse tempo que venho escrevendo, coisas que não se limitam
só às regras de escrita, como a estrutura, meios de atrair novos
leitores e alcançar fãs. Na medida em que eu for me lembrando
ou aprendendo algo novo, prometo também adicionar aqui.
Teaching mode on,
kanariya
- Cores
- Especialmente em páginas fora do LiveJournal, você encontra
fictions adicionadas de acordo com o esquema de cores de cada site. Os autores
quem publicam suas fictions por conta própria costumam se dedicar ao
CSS e HTML da página de maneira que as emoções da história
se relevem, algo que acho muito bom e afirmo fazer uma diferença
enorme.
Procure usar cores neutras para a fonte e para o fundo; não use cores
fortes principalmente sobre fundos claros, como um branco. Não tente
fazer do seu texto uma coisa em neon, pois uma combinação descuidada
cansa a visão de quem está lendo.
Exemplos (fonte/fundo): vermelho/preto, rosa/preto, rosa/branco, verde/branco,
verde-limão/preto, verde-água/preto, amarelo/preto.
Quanto mais puxados para o cinza forem os tons, quanto menos intensas elas
forem, mais confortável será fazer a leitura. Somente em palavras
ou frases com destaque use cores mais fortes (negrito, itálico, sublinhado,
grifado), mas de modo que as cores não façam a fiction fugir
do tema que é tratado. Você não pode fazer uma fic onde
a galera morre e colocar um rosa-choque nas palavras com ênfase. Indico
que faça um breve estudo sobre as cores antes de tudo, seja através
de leitura ou interpretação própria.
- Fictions no LiveJournal
- Atualmente, muitos escritores têm colocado suas fictions no LiveJournal,
em única conta. Por falta de serviços de hospedagem gratuitos
e sem propagandas excessivas (além da falta de conhecimento básico
sobre HTML e FTP), esses escritores criam um post para cada capítulo.
Para facilitar a busca pelas fictions, organizam todas em um arquivo. Um
arquivo facilita a vida de todo mundo com certeza, mas as
tags são maneiras mais rápidas de encontrar o quê se quer
ler.
Primeiramente, evite misturar as fictions com posts pessoais
se você for do tipo que escreve com freqüência. Além
disso, faça o bendito arquivo e deixe o link para o mesmo visível
para clicarem (sendo assim, nada de colocá-lo num perfil oculto, ou
deixá-lo desaparecer com os posts da página anterior). Quanto
ao sistema de tags, use-as somente para: Títulos, gêneros,
classificações e stauts. Você também pode
adicionar as bandas ou os casais, porém se fizer uma grande variação
deles é uma idéia que você deve esquecer para não
desorganizar este sistema que o LiveJournal oferece para facilitar sua vida.
Com as tags, os leitores encontrarão as fics antes de você atualizar
o arquivo que aparecerá como o post do topo, porque eu sei que ninguém
dispõe de todo o tempo do mundo para ficar atualizando.
Para completar, coloque sempre os links dos capítulos anteriores da
fiction no post do último, especialmente em comunidades, pois nem todas
têm um arquivo e a quantidade de posts é sempre grande, o que
vai imergir o seu com mais facilidade. Pode acabar demorando milênios
para encontrarem como tudo começou, e desta forma há o risco
de o leitor perder o interesse.
Aqui vai outra dica útil: Para você quem escreve no LiveJournal
e gostaria de hospedar as fictions em outro lugar (devido ao número
limitado de caracteres por post, por exemplo), acesse o Google
Docs. É um editor de texto online que permite muitas formatações
e o envio de arquivos de texto do seu computador a ele. Além de você
poder publicar as suas escritas na web, este editor online permite que você
escreva simultaneamente com várias pessoas. É uma benção
especialmente àqueles quem escrevem fictions com amigos.
- Layout
- Não adicione coisas demais na página onde ficará a
fic. Dê preferência ao clássico fundo branco ou preto,
com fonte em preto ou um cinza claro (respectivamente). Procure fazer gráficos
que não se destaquem tanto, para que fiquem planos. Evite exagerar
na plantação deles, pois a página pode ficar pesada.
Tenha todo cuidado para que o layout esteja de acordo com a história,
por exemplo: Dá muito mais efeito uma paródia de Alice no País
das Maravilhas ser escrita em uma página com vários detalhes
e cores que em uma monocromática.
- Número de páginas
- Para quem gosta mesmo de escrever, às vezes é quase impossível
parar. Não é? De repente, um capítulo já chegou
a vinte páginas e você gruda as mãos nos cabelos para
começar a se desesperar.
Para um oneshot, para que não fique cansativo, repetitivo, acho que
é bom demais ter menos de vinte e cinco páginas. Em um capítulo,
procure fazer mais de uma cena e não se prenda demais a descrições
de cenário ou dos personagens, para que não encha o saco do
leitor. Não vá além de vinte páginas (o que também
é um exagero, mas eu entendo que nem sempre dá pra parar antes);
nem fique atrás de quatro, pois algo rápido demais é
sempre underground, entende? O leitor não vai dar tanta atenção.
- Parágrafos
- Eu entendo que o padrão de livros é não deixar espaços
dividindo os parágrafos a não ser para indicar a vinda de uma
nova cena, mas é algo que eu particularmente detesto,
porque à primeira vista torna o texto confuso - dá a impressão
de que está embaralhado. Isso se torna uma questão de opção,
e eu indico que essa colagem de parágrafos seja usada somente
de acordo com o tema. Tudo o que estiver dentro da página - desde as
palavras às posições das frases, da extensão dos
parágrafos às imagens adicionada na página - contribuem
para a formação das figuras em nossa mente. Sendo a narração
levada por um tema que tente imergir o leitor ao esquema psicológico
das personagens, é até aconselhável; mas mesmo assim,
sem deixar uma linha de espaço divindo cada parágrafo, o leitor
pode se perder com mais facilidade e misturar as idéias.
- Primeira e terceira pessoa
- Nem sempre é só escolher se o narrador é narrador-personagem
ou não. Às vezes fica bem mais difícil fazer uma narração
para um gênero, para uma época. O que eu digo sempre é
que "a não ser que tenha um bom conhecimento de gramática
e boa interpretação, não faça POVs". Mais
difícil ainda é fazer histórias de época em primeira
pessoa, pois o contato com o protagonista é maior e você é
obrigado a usar a linguagem dele no texto inteiro - uma vez que você
não pode escrever "ah, porra, vai se foder, caralho, mano"
numa fiction acontecendo no século XVII. Aconselho, aliás, a
todos os que querem uma fiction desse tipo a pesquisar muito. Filmes são
a maneira mais divertida e eficaz.
- Reviews
- Você é o tipo de autor que precisa de reviews para sobreviver?
Como atraí-las é bem simples: Dê reviews à outros
autores. Faça uma review à toda fiction que ler, seja detalhista
e não tenha medo de corrigir o outro escritor em algum erro visível
- desde que não seja mau educado, pois sem simpatia você continua
com uma coleção nula de comentários. Além disso,
responda à todas as reviews que lhe forem deixadas, converse com o
leitor e procure saber cada vez mais detalhadamente o que ele achou de pontos
específicos da história. As pessoas temem comentar para aqueles
que sabem que vão ignorá-las ou tratá-las como mais um
leitor elogiando. Também não dê reviews como "ahhh,
muito legal a sua fic, quero mais!", não dê respostas pequenas
como agradecimento, pois o escritor fica sem saber o quê ele pode desenvolver
ou consertar e quem se fode é quem lê.
- Revisão
- A maioria dos escritores fecha o capítulo/ oneshot e o enviam para
um beta-reader - aquele que fará a correção e indicará
o que dentro do enredo ficou bom ou ruim. A leitura dos betas é uma
fase indispensável para a publicação de uma fiction,
pois uma sessão de erros de digitação ou gramaticais
espanta qualquer leitor. Todavia, esses escritores dispensam outra fase que
eu acho indispensável: A revisão feita por
eles próprios. Quando o autor lê aquilo que escreveu, reflete
sobre as próprias palavras usadas e descobre quais delas cabem ou não,
ou quais apareceram demais; quais vírgulas ou outros meios de pontuação
devem ser usados e onde devem ser usados. Fazer a leitura do próprio
trabalho antes de enviá-lo a um beta é um meio de se desenvolver
como escritor e descobrir como expandir o seu potencial para domar as palavras;
é a melhor maneira de aprender gramática, a qual pode parecer
só uma infinidade de regras, mas que para quem escreve torna tudo mais
claro - tanto as imagens mentais quanto as interpretações.
- "Bastante" e "bastantes
- Esta pouca gente conhece, e a maioria daqueles quem conhecem não
ligam muito. Eu comecei a prestar mais a atenção no sentido
e decidi usar.
A palavra "bastante" é adjetivo (significando "que basta",
"suficiente", "necessário"), é pronome indefinido
("muito", "numeroso") e advérbio ("em quantidade
sucifiente", "suficientemente"). Sempre quando a palavra for
usada como pronome indefinido, ela deve concordar com o número daquilo
a quê está se referindo. Resumidamente, para saber quando você
deve usar "bastantes" ao invés de "bastante", substitua
a palavra pela palavra "muito"; se a palavra ficar no plural ("muitos")
você usará "bastantes".
Exemplos:
- Nunca foi o bastante.
Nunca foi o suficiente.
- Hoje choveu bastante.
Hoje choveu muito.
- Bastantes pessoas saíram para comprarem chocolates.
Muitas pessoas saíram para comprarem chocolates.
- Conjunções
- É muito comum lermos: "Ele viajou. Mas
eu tenho a certeza de que voltará". Vamos analisar esta frase
de acordo com a função das conjunções.
"Conjunção é a palavra invariável
que liga duas orações, indicando as relações existentes
entre elas, ou dois termos semelhantes de uma oração.
[...] Para classificar as conjunções, devemos considerar os
processos básicos de construção da frase: A coordenação
e a subordinação." - daí eu explico resumidamente
que orações coordenativas são aquelas separadas por vírgula
e ponto e vírgula por terem sentidos independentes (ou seja, o que
vier depois desta pontuação será apenas complemento e
retirar não fará diferença na primeira informação
apresentada); e que orações subordinativas são aquelas
que dependem umas das outras, as quais completam o sentido da primeira oração.
É algo bem difícil de se entender até para mim, por isto
eu não vou arriscar falando demais à respeito; porém
o que eu disse foi necessário para guiar os pensamentos de vocês
a algo que eu descobri sozinha, testando a entoação das frases
e suas orações: Não coloquem conjunções
em começos de frases. Não estou me referindo a todas.
Explicando da maneira mais direta possível, se a conjunção
usada (tome como exemplo as frases colocadas acima deste parágrafo)
estiver completando o sentido da outra oração ou adicionando
uma informação sobre ela, não separe as duas coisas -
e o que eu digo é algo que lendo você é capaz de descobrir.
Seria como partir um CD em dois. Não tomem isto como uma ordem, pois
eu, ainda que seja a pessoa quem está lhes explicando isto, ainda consigo
cometer este erro quase invisível.
Exemplos:
Coordenativas:
- Adversativas: mas, senão, etc;
- Alternativas: ou... ou..., já... já...,
quer... quer.., ora... ora..., nem... nem..., etc;
- Conclusivas: logo, pois, etc;
- Explicativas: pois, que, etc.
Subortinativas:
- Causais: que, de modo que, de maneira que,
de forma que, etc;
- Comparativas: qual, que nem, etc;
- Finais: para que, a fim de que, etc;
- Crase
- Antes de tudo, o que você precisa lembrar é: A crase
só pode ser usada antes de substantivos e conjunções
que estão no feminino.
à - "a + a = à", "até
ela", "até a alguma coisa", "dedicado a tal coisa",
"fazendo algo para alguém".
Exemplos:
- Se não tivesse se atrasado, teria entregado o presente à
ela.
- Pretende sair para entregar o presente à amiga.
- Eu não gostaria de ter que me dirigir àquela
festa.
O uso da crase também se torna complicado com o nome de lugares, e
para saber quando você poderá colocá-la, veja os exemplos
abaixo:
- Fortaleza (ir a Fortaleza, vir de Fortaleza,
viver em Fortaleza, etc)
- Brasília (ir a Brasília, vir de
Brasília, viver em Brasília, etc)
- Bahia (ir à Bahia, vir da Bahia, viver
na Bahia, etc)
- Roma (ir a Roma, vir de Roma, viver em
Roma, etc)
- Coréia (ir à Coréia, vir da
Coréia, viver na Coréia, etc)
- Inglaterra (ir à Inglaterra, vir da
Inglaterra, viver na Inglaterra, etc)
Entenderam? Teste todos os tipos de preposições em um substantivo
para saber onde a crase deve ser usada. Se o substantivo precisar de preposições
como as usadas acima ("da", "na", "nesta/ nessa",
etc), do gênero feminino, você deve usar a crase.
Atenção: A crase nunca deve ser usada antes
de verbos e de artigos ("um" e "uma").
- Ênfases e destaques
- É comum os autores disporem das funções itálico,
negrito, riscado e sublinhado para que algumas partes do texto sejam realçadas.
Muitos confundem a função do itálico com as aspas, sendo
que o itálico é o quê deve dar a ironia da palavra.
Negrito - É o que melhor destaca uma palavra ou trecho,
dando a sensação de impacto, colocando
uma série de importâncias sobre a palavra; além de dar
a entender que está sendo pronunciada em tom mais grosso, firme ou
para a eliminação da paciência de algum personagem.
Itálico - Muda a entoação de voz, pode
indicar tanto um destaque mais sutil quanto uma ironia, ou duplo sentido.
Também é usado para estrangeirismos (algo que acho caber melhor
em itálico que em aspas).
Riscado - Não é todo mundo que usa, mas é
fato: O riscado serve para tentar omitir aquilo que não será
omitido, usado sobre palavras ou trechos que não são importantes
ou não são verdade, ou que são ocultados na história.
Está sempre relacionado a algo que deveria ser subliminar.
Sublinhado - Além da ênfase, diferente do negrito,
denota certeza daquilo o que é dito.
- "Onde" e "aonde"
- Não adianta os professores dizerem que um aparece quando tal coisa
acontece e o outro quando outra coisa acontece. Eu nunca consegui guardar.
Eu aprendi a usar o "aonde" há algum tempo, num estalo, quando
eu vi que se encaixava melhor do que o outro. Existem maneiras mais fáceis
de aprender a usá-los - substituindo-os pelas associações
abaixo:
Onde - "Em que lugar", "no lugar em que";
Aonde - "Até onde", "a onde",
"ir até aquele lugar", "àquele lugar", "caminhando
aonde está alguma coisa".
- "Que" e "quê"
- Que - O qual, a qual, os quais, as quais, o que, aquilo
que, embora, ainda que, para que, a fim de que, desde que, do que, porque,
pois que, e.
Quê - Alguma coisa, algo, "como??", "oh!".
- Pontuação
- É fato que a maioria sabe um dicionário mínimo de palavras,
porém o maior problema de todos é sempre organizá-las.
Para isto temos a vírgula, ponto, ponto-e-vírgula, dois pontos,
ponto de interrogação, ponto de exclamação, reticências,
aspas, travessão, parênteses e, finalmente, os astericos (na
ordem dos que mais são usados até os que nem são lembrados).
Vou explicar para quê cada uma serve, visto que não há
nem uma sem passar por erros de colocação.
Vírgula:
Vírgulas vão ser sempre o maior problema da humanidade brasileira.
Você precisa treinar muito para aguçar os sentidos e perceber
onde elas devem ficar realmente. É a famosa "breve pausa",
que nos dá a permissão de respirar, principalmente se o texto
foi elaborado para uma apresentação oral. Saber manobrá-las
é, definitivamente, um dos maiores passos que se pode dar como escritor.
Têm mais funções do que aparentam, ainda que todas estejam
relacionadas à "breve pausa":
a) isolar o vocativo:
"Quero ver como você vai sair dessa, porque amor não tem
volta, Hizumi."
b) para isolar o aposto (orações que ficam
entre vírgulas, as quais podem ser retiradas sem causar qualquer alteração
no sentido da frase):
"Quero ver como você vai sair dessa, porque
amor não tem volta, Hizumi."
c) isolar palavras e expressões explicativas ("por
exemplo", "isto é", "ou melhor", "aliás",
"além disso", etc):
"Hizumi acendeu as luzes e testou as coloridas para apresentar,
além de tudo, a mudança de clima que proporcionavam."
d) isolar o adjunto adverbial antecipado (o lugar onde aconteceu/
acontece alguma coisa antes de ser dito o quê é):
Ontem à noite, eles decidiram que o dominariam
os sete mares.
e) isolar elementos repetidos:
Eles ficariam presos, presos até que um
milagre lhes trouxesse a liberdade de volta.
f) para isolar, nas datas, o nome do lugar:
França, 15 de Abril de 1756.
g) para isolar adjuntos adverbiais (afirmação,
dúvida, intensidade, lugar, modo, negação, tempo):
Diferente do que pensava, aos poucos, a dor ia
deixando a região brutalmente atingida.
h) para isolar orações coordenadas (orações
que servem de complemento para outras orações), exceto as introduzidas
pela conjunção e:
Acreditou que poderia fazer melhor, logo estava rabiscando
em outra folha.
ou...
Desistiria da própria paixão em nome dos familiares,
mas tocaria sua guitarra pela última vez.
i) para indicar a elipse de uma oração:
Ninguém entendeu realmente. Uma parte diz que
foi suicídio, outra, que o acontecimento foi conseqüência
de um crime.
j) para separar paralelismo de provérbios:
"Ladrão de tostão, ladrão
de milhão".
l) após uma saudação em correspondência:
Com pouca moralidade social,
kanariya
n) para isolar orações adjetivas explicativas:
Meu amigo, que sempre foi um bom motorista, não
conseguiu escapar ileso do trânsito caótico.
o) para isolar orações intercaladas:
A coisa chegou a tal ponto, disse o mais novo,
que é impossível voltar com todos os dedos da mão para
casa!
Ponto:
O ponto é aquele que todos nós sabemos usar, pois sabemos que
ele vem sempre para encerrar uma frase e, por isso, acredito que não
seja preciso eu dar exemplos de como fazer isso aqui. O ponto também
é colocado para abreviar palavras, como fev. = fevereiro,
e por aí vai.
Ponto-e-vírgula:
As pessoas têm a visão de ponto-e-vírgula como se fosse
a de um monstro. Desde que eu aprendi a usá-lo, descobri que ele tem
uma eficiência enorme. Como o próprio nome diz, o ponto-e-vírgula
é sim um ponto e vírgula; é como começar uma frase
nova, mas ela dá continuidade ao que foi dito na primeira, e faz uma
pausa maior, de fato.
a) separar orações coordenadas que tenham o
mesmo sentido quando já estão sendo separadas por vírgulas:
Quando era baixinho, não tinha noção
do que estava à sua volta; de repente, grande, estava lidando com buzinas
de carros, gritos do chefe, reclamações da namorada e tudo o
que não gostaria de estar suportando.
b) separar vários itens de uma enumeração:
Tudo o que ele precisava para a vida dele não
poder estar pior:
I - ser expulso de casa;
II - bater o carro;
III - chegar encharcado no trabalho com mais de meia hora de atraso;
IV - perder o emprego;
V - não ter dinheiro para o aluguel;
VI - estar fazendo a lista de tudo que deu errado em menos de uma semana.
ou...
...pois nada parecia dar certo enquanto a loja não
tinha clientes; quando ninguém fazia o seu celular tocar para lhe dar
os parabéns; quando a tempestade do lado de fora reduzia a sua estadia
na própria casa; não ter entregadores corajosos para lhe levarem
comida até seu apartamento no fim do mundo, possuidor de uma geladeira
vazia.
Dois pontos:
É um dos que mais gosto, porque dão uma ênfase à
frase sem que seja preciso grifá-la de alguma maneira. É um
dos menos complicados de se usar, embora até em gramáticas eles
não digam uma das informações mais importantes sobre
eles - que é a que me traz aqui para escrever sobre: Toda frase
que vier após os dois pontos tem que ser iniciada
com letra maiúscula. É uma das regras menos conhecidas,
pois não deixa de ser uma nova frase, na maioria das vezes que não
tem a ver com a primeira. Além disso, ele anuncia uma enumeração
de vírgulas, um diálogo e uma explicação.
Pontos de interrogação e exclamação:
Sabem qual é o mais engraçado? Muita gente não usa -
especialmente o ponto de exclamação. Um dos erros mais comuns
- e sérios - de quem está começando é a falta
desses dois, substituindo toda pontuação do texto por reticências.
Acho a interrogação e a exclamação muito importantes
e, embora haja os problemas citados, eu não acho necessário
explicar o uso de cada um, sendo que são regras de primário
e todos, até os que não usam, têm sua funcionalidade na
cabeça.
O motivo pelo qual eu venho falar sobre eles é quando se misturam.
Muitos usam de jeitos que dão outro tom às falas dos personagens.
Vou descrever rapidamente como devem ser usados:
? - Usado com casualidade; para tons de voz normais, que
não se alteram a um volume mais alto.
! - Dá sinais de alegria, exaltação;
mas nem sempre altera a gravidade da voz.
?? - Agora, o tom de voz muda. Anuncia que o personagem começa
a ter uma perda de controle emocional, e podem ser usados para uma mudança
simples como para gritos em forma de questionamento.
?! - Estes são o que mais aparecem em lugares estranhos.
São usados para fazer aquele tipo de pergunta que não é
uma pergunta, e sim uma afirmativa, geralmente repetindo o que outro personagem
disse.
Exemplo:
- Acho que não vai chover.
- Você acha que não vai chover?! Senti um pingo esfriar o meu
nariz!
!! - Indica o relevo da voz do personagem, usado para gritos.
Ainda que você imagine janelas e copos quebrando com tanta histeria,
não use mais do que duas exclamações, ou três (no
máximo), pois causam deformações no sentido de deixar
feio aquilo o quê foi escrito. Aconselho a somente usar todas as letras
em maísculo para e emitir mais histeria, afinal, ninguém grita
ao ponto de o mundo inteiro ouvir.
Reticências:
Vamos direto ao ponto: Queridos iniciantes, não usem reticências
demais! Deixa o texto muito pausado, cansativo, incerto, inseguro
- no sentido de você não ter certeza do que está escrevendo.
Reticências são para acentuar falas, dar aquele ar de mistério,
não para serem usadas no lugar de vírgulas e dar a sensação
de que o leitor está se afogando.
As reticências servem para:
a) assinalar interrupção de pensamento:
Enquanto eu estiver aqui, não sei por quê,
vou me sentir assim, tão...
ou...
- Eu só disse que eu...
- ...Você tem que dizer nada. Há nada que eu queira ouvir.
b) indicar espaços que são suprimidos de um
texto:
Levando as coisas para cima, teve que organiza-las...
Descendo as escadas para ver o que havia acontecido, pois o som alcançou
até o último quarto do andar superior... Caiu desacordado no
chão.
OBS: [...] - a mesma coisa, docinhos. É só
querer cortar trechos de um texto.
c) marcar aumento de emoção:
Sendo assim, tudo o que eu fiz... Eu não entendo,
pois desde o começo nunca houve a intenção de magoar
você...
Aspas:
Não sei por qual motivo, mas as pessoas pegaram a mania de usar as
aspas de maneira incorreta - simbolizando ironia, como quando falamos algo
e indicamos as aspas com os dedos. Vou quebrar a felicidade de muitos aqui,
mas é errado. As aspas servem unicamente para citação,
seja de palavras ou frases - ou seja: Citações textuais,
estrangeirismos, gírias, expressões populares ou consideradas
vulgares. Há também quem as use para fazer diálogos,
sob afirmação de que a história acontece no passado -
e este é o padrão norte-americano, aliás. Mesmo assim,
as aspas são exclusivamente para citações em meio aos
parágrafos. Para diálogos, use o travessão, não
importa o tempo em que se passar a história.
Travessão:
Falando em travessão, você lembra logo de diálogos. Aposto!
É uma das primeiras coisas que aprendemos ao entrar no colégio,
mas o travessão não é só usado para separar as
falas dos personagens e as falas deles de suas ações. Veja os
exemplos abaixo:
a) colocar em relevo certas palavras ou expressões:
Não é como se eu fosse assim o tempo todo, mas -
sem querer ser chato - eu gostaria de pedir que pensasse um pouco mais
sobre suas atitudes.
b) substituir uma vírgula ou dois pontos:
Quanto mais ele se esforçava, mais as coisas davam errado, sendo tudo
o que queria é se livrar da dependência dos pais -
dependência que vinha deles, pois aprendeu o bastante passando uma semana
vagando da vez em que fugiu.
c) ligar palavras que formam um tipo de conjunto:
Eu pretendo aproveitar este ano com viagens para Estados
Unidos-Canada-Inglaterra.
Parênteses:
Os parênteses são bastante famosos e estão mais presentes
no nosso dia-a-dia do que reparamos. Não é preciso me aprofundar
neles, por isso vou apenas listar suas funções:
- destacar num texto explicações ou comentários;
- incluir dados informativos sobre bibliografia;
- iniciar marcações cênicas numa peça de teatro;
- isolar orações para substituir vírgulas ou travessões.
Asterisco:
O coitado é sempre deixado por último, até por mim. Não
é proposital. O asterisco é bem útil, não tanto
quanto os outros, mas poderia ser mais usado. Você encontra e pode usá-lo
para por notas no final da página ou simplesmente emitir algum nome
por não haver necessidade de citá-lo, por exemplo:
Não sei quanto à você, mas o Dr.*
não me pareceu confiante sobre o estado de saúde
de *.
- Trema
- Eu sei que essa coisa de unificar a língua portuguesa vai tirar o
trema dos nossos acentos, mas é algo que eu considero importante demais
para dar falta todas as vezes que leio uma fiction. Lembrem-se de usar a trema,
ou amanhã as pessoras lerão "sekestro" ao invés
de "seqüestro".