Há uma
variedade de livros escritos hoje em dia. Ficção, terror, suspense,
romance, sempre há algum que agrade uma pessoa. Nas livrarias e
biblioteca sempre há alguém folheando ou lendo alguma obra nova ou
clássica. Na noite de natal do ano de 2007, em uma pequena livraria
no centro de uma fria cidade interiorana na Alemanha, um homem
estava passeando entre as prateleiras em busca de um livro. Uma
simpática senhora japonesa o seguia, caminhando lentamente atrás
dele, tentando chamar a sua atenção. Discretamente, ela pousou sua
mão no braço esquerdo dele, que imediatamente se virou para ela e
disse:
- Pois não?
- Desculpe incomodá-lo, mas... Por algum acaso o senhor é Hans
Schwartz, o autor desse livro? - a velhinha segurava um grosso e
pesado livro de capa dura nas mãos com a maior dificuldade.
- Pois não é que sou eu mesmo? - disse o homem chamado Hans.
- Que prazer! Será que poderia me dar um autógrafo?
- Claro. Como se chama? - disse ele, pegando o livro e uma caneta no
bolso do paletó.
- Use a minha caneta, faço questão! - ela pegou uma caneta na bolsa
e deu a ele - dedique para Sebastian.
- É pra presente?
- Sim, para meu neto. Ela já leu todas as suas obras anteriores
sabe... Ele sempre diz que o senhor é o criador das mais belas e
corretas teorias sobre o principio da evolução humana.
- Ele é antropólogo? - perguntou Hans.
- Ainda não, mas está no segundo ano de faculdade.
- Pronto. Diga a ele que estude muito, pois é uma carreira
prazerosa, porém difícil.
- Digo! Muito obrigado Sr. Hans, não sabe o favor que me faz.
Dizendo isso, a senhora deu meia volta e se dirigiu ao
caixa. Hans Schwartz, não achando o livro que queria, seguiu para
sua casa.
A
residência do Sr. Hans Schwartz ficava distante do centro da cidade,
em um bairro de classe média. A casa era grande e rodeada por um
jardim desbotado. A porta da frente ela de carvalho, pesada, e nela
estava pendurada uma linda guirlanda natalina. Na casa moravam
quatro pessoas: Hans, sua mulher Esther, e seus dois filhos Kristin
e Dirk. Essa noite, Esther estava preparando um belo peru e uma
porção de pratos requintados e suculentos para o natal.
- Amor, conseguiu o livro que eu pedi? - gritou ela, da cozinha.
- Infelizmente não. Estava fora de estoque.
- Que pena. Dessa vez terei que dar outra coisa pra mamãe.
- Dê um jogo de xícaras infantis que ela se contenta. Sua mãe é uma
graça! - disse Hans, rindo.
- Não me venha com essa, Hans. Você sabe que a segunda opção é um
disco daquele cantor russo que ela adora.
- É eu sei. Encontrei na livraria uma senhora que me lembrou muito
ela, mas era japonesa.
- E o que queria?
- Um autógrafo, claro.
- Você já está acostumado. Vá se arrumar que os parentes já estão
chegando!
Hans subiu as escadas que levava aos quartos. Na
primeira porta do corredor ficava o quarto de Kristin, a mais velha,
que agora estava ouvindo uma musica alta e se arrumando pra
cerimônia, na segunda era o quarto de Dirk e os aposentos do casal
ficavam na porta ao fundo do corredor. Hans deitou-se na cama para
relaxar por alguns minutos. Quando viu, havia dado uma cochilada.
Sonhou com a recente cena da livraria, com a senhora japonesa e o
livro que segurava. Viu também relances de rostos estranhos e
perturbados. A cena da livraria se dissolveu dando lugar há um
laboratório encoberto por uma penumbra azul. Hans estava deitado em
uma maca hospitalar olhando para o teto. Depois de uns instantes
notou que no laboratório existiam mais duas pessoas. Uma delas era a
senhora da livraria, e a outra, um homem, que ele não conseguiu
identificar. A senhora pegou uma seringa em uma mesa cirúrgica e se
dirigiu para Hans. Assustado, ele resolveu se distanciar da mulher,
mas percebeu que seus braços, pernas e cabeça estavam amarrados à
maca. Tentou gritar, mas a voz não lhe saía.
- Fique quieto Sr. Schwartz, isso já vai acabar. - disse a velha,
que agora não parecia mais tão inocente.
Hans começou a se debater fortemente na maca, tentando
se soltar das ataduras. Foi quando o homem, que até então estava
quieto no fundo do laboratório, veio lhe segurar os braços. O homem
começou a gritar seu nome - Hans! Hans! Pare com isso! -
Nesse momento as ataduras se soltaram e a cena se dissolveu. No
lugar em que antes estava o homem agora estava Esther segurando-lhe
os braços.
- Hans! Acorde! - disse ela.
- O que aconteceu? - perguntou Hans, acordando.
- Você teve um sonho, aliás, deve ter sido pesadelo! Você não parava
de gritar e se debater!
- Meu Deus... Você acredita que eu sonhei com a velha japonesa da
livraria?
- E ela queria um autógrafo? Você está ficando paranóico com esses
autógrafos.
- Não... Ela queria... Deixa pra lá.
- Que seja. Se arrume!
- Por quanto tempo eu dormi?
- Sei lá, você acabou de subir pro quarto!
- Ótimo.
Hans tomou um banho e tentou esquecer o sonho e o
encontro. Não havia motivo pra tal coisa o assustar. Fora um simples
autografo! Tudo bem que hoje em dia não se pode acreditar em
qualquer um, mas a senhora não ofereceu perigo algum. Ele desceu as
escadas ate a sala e percebeu que seus pais já haviam chegado. Não
os via há um ano, desde o natal passado, pois viviam nos Estados
Unidos.
- Meu filho! - disse a mãe dele - como cresceu!
- Mamãe, em um ano um velho não muda nada. A senhora está bem? Cadê
o pai?
- Ta ali cumprimentando a sua nova vizinha.
- Minha nova vizinha? Que vizinha? - perguntou Hans.
- Aquela ali! - sua mãe apontou pra uma senhora. Na hora Hans tomou
um susto: era a velha da livraria.
- Algum problema filho?
- Não, nada mãe. Vamos lá cumprimenta-la com os outros.
Hans e sua mãe foram até ela e os outros. A mulher
estava apertando a mão de seu pai e de Esther. Quando ela viu Hans,
não escondeu a surpresa:
- Pelo amor de São Pedro! Esther, você não tinha me falado que era
mulher do famoso escritor Hans Schwartz!
- Achei que você nem o conhecia, Ruth. - disse Esther, virando-se
para o marido - Convidei Ruth pro natal porque agra ela mora
sozinha, Hans.
- Mudei-me ontem. Minhas filhas foram passar o natal na Inglaterra e
eu resolvi ficar por aqui curtindo casa nova.
- Amor, ela é a senhora que eu encontrei na livraria! Coincidência,
não? - disse Hans, sem deixar a surpresa transparecer em sua voz. -
Diga-me, a casa é boa?
- Ótima! Já veio reformada e mobiliada. Com o dinheiro que paguei
era melhor que viesse mesmo! - riu ela.
- Vamos nos sentar à mesa! Amor, e cadê seus pais?
- Mamãe ligou e disse que já estão chegando. - respondeu.
- Eles moram aqui na cidade mesmo Esther? - perguntou Ruth,
sentando-se à mesa.
- Infelizmente não. Mudaram-se pra uma cidade ao sul. Mamãe achou
melhor uma mudança de ares depois do acidente.
- Acidente?
- Minha irmã mais nova sofreu um acidente há três meses... Foi muito
difícil pra mamãe.
- Entendo...
O tempo passou, os pais de Esther chegaram, e a família
toda festejou o natal, cheio de autógrafos e fotos para Sra. Ruth.
Quando já passava das duas da manhã, todos se despediram, inclusive
ela. Já na cama, pronto pra dormir, Hans conversou com Esther:
- Você acredita em coincidências? - perguntou ele.
- Por que pergunta? Por causa de Ruth?
- Sim. Achei estranho o ocorrido.
- Eu não. Hoje em dia é comum esbarrarmos em conhecidos por aí.
- Mas ela estava na mesma livraria que eu, procurando um livro meu,
e do nada eu fico sabendo que ela mudou-se pra casa ao lado da
minha?
- Oras Hans, essas coisas acontecem! Tudo bem que é uma chance em um
milhão... Mas acontecem! Você não tem nenhuma teoria sobre
coincidências?
- Sou antropólogo e não um guia espiritual.
- Meu deus! - riu Esther - O que isso tem a ver com espiritismo?
- Não sei... Boa noite, amor.
- Boa noite.
Hans dormiu e teve o mesmo sonho de antes. A Sra. Ruth
chegava com uma seringa e ele se debatia na cama. Mas dessa vez o
homem não veio lhe segurar os braços. Foi como se uma força
invisível o tivesse segurado. Seu corpo não se mexia mais, e
finalmente ela lhe espetava a seringa. Nesse momento Hans acordou.
Olhou para o rádio-relógio na escrivaninha e notou que já se passava
das dez da manhã. Sua mulher já não estava mais na cama e um alto
burburinho podia ser ouvido vindo de fora da casa. Foi até a janela
que dava pra rua e viu um carro parado no meio da rua e um monte de
gente em volta do que parecia ser um corpo. Sem pensar duas vezes
Hans saiu correndo, temendo que aquele corpo fosse de alguém de sua
família. Chegando lá fora, de roupão, avistou Esther, Kristin e Dirk
encostados em um canto observando tudo.
- Graças a Deus vocês estão bem! O que aconteceu aqui? - perguntou.
- Aquele homem foi atropelado - respondeu Dirk.
- Quem estava no carro?
Esther lhe olhou tristemente e disse:
- A Sra. Ruth.
Hans não escondeu a ansiedade e correu para a casa ao
lado, onde a Sra. Ruth estava prestando depoimento à polícia.
- Não foi minha culpa! Eu juro! JURO! - disse ela, chorando.
- Nós sabemos senhora. Mas realmente precisamos que você nos diga o
que aconteceu na hora do acidente. - o policial estava tentando
acalma-la.
- Ele estava... O homem simplesmente... Apareceu na minha frente!
Não tive tempo de brecar!
- Apareceu? Ele veio correndo pra frente do seu carro?
- Isso! Exatamente isso! - disse desesperada.
- A senhora vem recebendo algum tipo de ameaça ultimamente?
- Absolutamente não!
- Tudo bem. Vamos manter a senhora sob observação, são regras.
- Ok, desde que eu possa ficar em minha casa.
- Pode - o policial virou-se para Hans - É algum parente dessa
senhora?
- Não... Apenas vizinho.
- Você estava presente na hora do acidente?
- Estava dormindo quando ouvi vozes vindas aqui de fora... Pensei
que alguma coisa pudesse ter acontecido com minha mulher ou filhos.
- Entendo. Bom, peço para que fique de olho na rua, qualquer
movimentação suspeita ligue imediatamente pra nós.
- Com certeza.
O policial se retirou e foi conversar com os outros da
sua equipe. Hans aproveitou pra conversar com Ruth.
- A senhora está bem?
- Sr. Schwartz! Meu Deus, isso é terrível! Devo estar ficando
louca... O homem praticamente se atirou em cima do meu carro! Vou
procurar um psiquiatra.
- A senhora conhece algum?
- Claro. O Sr. Phillip Addams, o melhor psiquiatra da Alemanha! -
Sra. Ruth tirou um cartãozinho de um bolso e entregou pra Hans - Ele
cura todos os males e abre o consultório até nos feriados.
- Por que a senhora acha que precisa de um psiquiatra?
- Ultimamente ando tendo uns sonhos estranhos, como se alguém
quisesse me dopar. Minha prima Amélia já teve algo assim e o Dr.
Addams curou-a.
- É com se você estivesse em um laboratório?
- Exatamente! O senhor também tem esses sonhos?
- Não, não. Só curiosidade. Bom, se a senhora estiver bem, eu vou
entrar ok?
- Tudo bem. Desculpe tomar seu tempo Sr. Schwartz.
Hans entrou e sua família veio logo atrás. Já dentro de
casa, Esther comentou:
- Que situação hein? A Sra. Ruth ficará bem?
- Os policiais estão suspeitando alguma coisa. Pediram que eu
ficasse de olho na rua, se alguma coisa estranha acontecesse era pra
eu ligar.
- Quem você acha que é?
- Deve ser algum jovem drogado que se jogou na frente do primeiro
carro que viu...
- Pode ser.
- Bom, vou dar uma passada no centro da cidade.
- Mas pai, hoje é natal! - disse Kristin.
- Eu sei - disse Hans olhando pro cartão em sua mão. - Mas alguns
lugares abrem até nos feriados.
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