In Reverie 01 - Meet Roy Merrit
 

“Tenho por princípios nunca fechar portas. Mas como mantê-las abertas o tempo todo, se em certos dias o vento quer derrubar tudo?” (Adriana Calcanhoto)

 - Roy? – disse uma linda mulher – ROY!? Cadê você?

 - Estou aqui, Srta. Ford. – respondeu o garoto chamado Roy, aparecendo pela porta do escritório da mulher – Deseja alguma coisa?

 - Sim, mande alguém descosturar aqueles vestidos que chegaram ontem. Não sei de onde tiraram a idéia de colocar aquele degrade verde-rosa na barra. Sabe que horas são?

 - Está quase na hora do seu chá da tarde, portanto, 15h.

 - Roy... Já disse pra não me deixar atrasar. Tenho um compromisso muito importante depois dó chá.

 - Já ia lhe chamar, Srta. Ford. Aliás, Nico Reilly da Bonfire Magazine ligou agora a pouco, ela me pareceu bastante preocupada.

 - Hum... – expressou a mulher com um muxoxo – Esqueça Nico e mande logo costurar os vestidos.

                Era uma agitada tarde de sexta-feira em Nova York e todos estavam irritados. Roy Merrit, de 24 anos, trabalhava com Victory Ford, uma renomada estilista da atualidade. Os dias no ateliê de Victory não eram nada calmos e bastante desgastantes, porém era o que dava combustível à vida de Roy, pois ele adorava trabalhar com Victory. Sempre que passava por momentos difíceis era ela quem lhe dava apoio e muitas vezes abrigo. A relação dos dois ia muito além da ética entre patroa e assistente, eram amigos. Dali alguns dias iria acontecer um desfile de moda para o lançamento da nova grife com o nome de Ford, e todos estavam no meio do caos: as negociações com as modelos não ia muito bem pois algumas só sabiam expressar suas habilidades fúteis na hora de montar a lista de requerimentos para os camarins, os produtores e agentes executivos de uma hora pra outra resolviam cortar o orçamento que já passava de milhões, sem contar o número de ligações que Roy atendia por minuto. O ateliê agora mais parecia a arca de Noé. Pra lá e prá cá passavam algumas garotas com seus modelos de plumagem e couro e às vezes se viam mil cabides na mão de alguma assistente apressada.

                Por mais que o ateliê virasse uma parafernália só, a bagunça ali era de certa forma organizada e harmônica. Todos cumpriam suas funções tais como deveriam, no tempo certo e da maneira correta. Roy atendia mil telefonemas de uma vez só, mas dava conta; as assistentes secundárias arrumavam todos os modelos da maneira que deveriam ser arrumados e dispostos para que Victory pudesse rever tudo antes do desfile. As duas semanas que viriam seriam as mais pesadas: as modelos contratadas teriam que provar todas as roupas e fazer um “desfile-teste” pra treinarem as posições corretas na passarela, além de todos os testes de som e a finalização do difícil contrato da banda que faria a trilha-sonora na noite tão aguardada.

                Victory estava em sua sala sentada em sua elegante e cara cadeira-giratória talhada em mogno branco; ela tinha os olhos levemente puxados e era uma maravilhosa e carinhosa mestiça. A essa hora do dia estava à espera de um dos maiores e mais bem sucedidos executivos da cidade de Nova York, Marco Mosley. Ele cuidaria das marcas patrocinadoras do evento, e isso era de suma importância. Sem o devido marketing aplicado ao desfile, os donos das grandes marcas, como Gucci, Dolce & Gabbana e Ray-Ban, nunca mais iriam querer patrocinar um evento com o nome de Victory Ford.  Todos já sabiam que o Mr. Mosley iria visitar o ateliê hoje, então o caos dos preparativos para o desfile estava triplicado, e Roy ainda estava dando conta do recado. Em alguns minutos o “homem das marcas”, como era chamado Marco Mosley ali dentro, iria aparecer por aquela porta e depositar em todos ali um olhar frio e penetrante, e Victory teria que estar a sua espera. Roy entrou no escritório particular de Victory e a alertou:

                - Srta. Ford, nós precisamos acertar os últimos detalhes sobre a banda antes que Mr. Mosley chegue.

                - Sim Roy, eu sei. Como chama a banda mesmo? – Perguntou Victory.

                - Chama-se... – olhou um pequeno papel que levava junto com o monte de papéis e a agenda de Victory – Dangerous Muse. Esse nome te lembra alguma coisa?

                - Sim, me lembra que minha sobrinha quer o último álbum desses caras. É uma dupla não é?

                - Pelo que foi me passado, sim, é uma dupla. Os dois homens.

                - São gays?  - perguntou Vic com uma expressão engraçada. Meio sem jeito, Roy respondeu:

                - Creio que não... Existe algum boato sobre isso?

                - Existe o maior boato, Roy. Você não tem irmãos que ouvem músicas atuais?

                - Meus irmãos moram na Austrália, Srta Ford, lembra? Moro nos Estados Unidos há quase 7 anos... Não tenho muito contato com eles.

                - Roy, quantas vezes já te disse pra me chamar apenas de Vic? Victory no mínimo.

                - Não, Srta. Ford. Dentro do ateliê eu sou seu assistente, apenas fora dele sou seu amigo. O que as pessoas pensariam sobre isso?

                - Pensariam que eu adoro meu assistente. – dizendo isso ela o abraçou com todo o carinho que ela daria se tivesse um filho. Ele ficou sem jeito – Vamos, Roy, Mr. Mosley está chegando aí, fique lá perto da porta e veja se todos estão em seus postos.

                Roy foi fazer o que sua chefa tinha pedido com a maior responsabilidade. Um dos princípios que Roy seguia era de estar sempre mergulhado profundamente em um projeto. De todos os seus empregos anteriores esse era o que mais lhe dava trabalho, e isso o satisfazia. Às vezes a vida era difícil e o trabalho servia para camuflar os problemas sociais. É lógico que Roy sabia que isso se tratava de uma fuga barata e também tinha ciência de que era um comportamento fraco, mas não conseguia evitar, era de sua natureza. Victory era uma superior muito carinhosa e sempre que precisava, ouvia Roy com a maior das atenções. Ele confiava em Victory, e ela confiava nele. Há um tempo atrás Victory passou por um mal bocado em sua vida, teve um desfile cancelado e outro que fora um desastre que fez com que sua carreira despencasse. Logo depois do desastre ela parou para tirar umas férias e quando voltou à cidade, Roy estava em sua porta. Nele ela viu um brilhante futuro: filho de pais empreendedores que investiram em uma empresa que exportava couro, Roy dizia que iria se dedicar totalmente à Victory, pois ele enxergava o potencial que ela possuía para esse ramo do mercado, a moda. Vic não pensou duas vezes e logo contratou Roy, que teve um importante papel na reerguida do nome de Victory Ford. Até hoje eles estavam juntos e atarefados.

                No salão principal do ateliê o apocalipse ainda acontecia, e todos estavam satisfeitos com isso. Segundos depois que uma modelo tropeçou em seu próprio salto, ouviu-se uma batida na porta, era o senhor das marcas. Agora a encenação ia começar: todos os assistentes e seus volumosos cabides se postaram atrás do grande painel que separava o salão da outra parte do ateliê onde ficavam os manequins, as modelos correram para formarem a fila indiana que Vic havia pedido para que fosse feita, e o resto da equipe juntou as tralhas que estavam usando e saíram pela porta dos fundos. Roy foi até a porta e abriu-a encenando um engraçado movimento que era pra parecer provincial. O homem que apareceu do outro lado do portal não parecia muito contente, tinha uma expressão fechada e fria e com sua rouca voz de fumante pronunciou as seguintes palavras:

                - Victory Ford está? Combinamos às 15h30min.

                - O Senhor é pontual, Mr. Mosley. A Srta. Ford está te esperando na sala dela. Venha comigo, por favor.

                Ambos atravessaram o salão do ateliê e seguiram até a sala de Victory. Os olhos de Marco Mosley secavam as paredes forradas em mogno branco e o carpete creme que forrava o chão do salão e sustentava os tablados onde as modelos provavam as criações de Vic. Tudo estava onde deveria estar, da maneira em que deveria ficar. Ambiente perfeito, atmosfera perfeita, clima perfeito. De ruído só se ouvia a respiração das pessoas presentes e o som do ar-condicionado em funcionamento. Antes que chegassem à sala de Vic, ela apareceu na porta para cumprimentar o recém chegado:

                - Mr. Marcus Mosley! – disse ela – Que prazer eu sinto em ter o senhor aqui no meu ateliê. Vamos entrar.