|
Meu
querido,
Venho por meio dessa singela carta expressar-me.
No tempo em que senti dor imensa por você não consegui dizer nada,
por isso escrevo-lhe. Não acho que essa carta um dia seja lida com a
total atenção que eu espero que seja empregada, mas não perderei
nada se não arriscar. Lembro-me da primeira vez em que te vi, com
doce olhar do qual nunca me esquecerei, sua engraçada postura que
me impressionou, além da sua espontaneidade diante outras pessoas.
Me sentia completamente feliz em estar com você mesmo ainda não
sabendo meu real sentimento. As tardes alegres de sol ou chuva em
que nos divertíamos em qualquer lugar que fosse, os dias incompletos
que você preenchia com sua sutileza nas noites em que passávamos em
claro. Nunca me senti tão preenchida em toda a minha vida,
aproveitava cada minuto como se fosse o último. Queria poder
tocar-lhe a face, envolver-te em meus braços e abraçar-te como
ninguém nunca te abraçou. Tudo estava pleno, ate que ela apareceu. A
partir do momento que a vi roubar-lhe o beijo que deveria ser meu,
meus dias voltaram a ser vazios e as noites já não tinham mais o
mesmo glamour. A outra, que podia tocar-lhe a face e abraçar-te como
nunca farei, me dava âncias. Continuava eu em meu caminho, sem poder
expressar-me como deveria. Fiz de tudo para esquecer-te, tentei
suprir minha necessidade de você com outras preocupações, mas tudo
ia em vão, eu já estava dentro desse mar que não escolhe sua
trajetória, e sei que é impossível sair dele por vontade própria.
Lágrimas caíram em minha face como nunca haviam caído antes, senti a
dor imensa que não pode ser curada com simples palavras. Minha única
vontade era acabar com aquela que recebia sua atenção, porém, via
que você estava feliz, e a sua felicidade me impedia de cometer tal
ato. Coragem eu possuía, mas essa agora já desviou o seu destino à
outra pessoa. Com meu punhal na mão, despeço-me lembrando das únicas
palavras que me fizeram viver até os dias de hoje, em que você já
não faz parte da minha vida como eu queria que fizesse. Palavras
estas que serão carregadas comigo por toda a eternidade e por onde
quer que eu caminhe. Quero que leve-as consigo também, mesmo não
mais me importando a quem elas serão destinadas. Com meu sangue
escorrendo pelos dedos, assino essa carta, e agora reúno forças para
dizer tais palavras que sempre tive em mente: eu te amo.
De sua incógnita,
Ilyth Meyer
Inglaterra, 27 de Novembro de 1877 |