The Siren Foundation 02 - Imperial Building
 

            Eram seis horas da manhã, e eu havia acabado de sair do táxi que me levou até o meu destino final, o Imperial Building, sede de um escritório de advocacia. Pisando na calçada acinzentada que margeava esse largo cruzamento de Nova Iorque, eu olhei para a imponente fachada do prédio. Tudo nele parecia realmente Imperial: nada era igual aos outros prédios que estavam em volta, cinzentos e frios. Não, esse tinha algo a mais... Era como se fosse feito de algum material desconhecido, desbotado, com pilares gigantes que ladeavam a enorme porta dupla de carvalho, além da escadaria muito larga que estava abarrotada de pessoas que iam e vinham, estudantes e seus mp3 players que estavam sentados à vontade estudando ou conversando com seus amigos, crianças brincavam de subir e descer os degraus enquanto seus pais passeavam com os cachorros. Tudo no Imperial Building passava uma atmosfera de paz, apesar de ser um escritório de advocacia, e era nesse prédio que eu iria iniciar meu novo emprego hoje.

            Lá dentro eu iria me encontrar com Michelle Lewis, a advogada-chefe do departamento onde eu atuaria. Eu só havia falado com ela por telefone uma única vez, e nem sequer tinha visto uma foto dela, mas sabia que seu nome era muito conhecido no meio jurídico. Apesar de tudo eu estava tranqüilo. Como eu podia ser tão idiota? Estava prestes a entrar no maior prédio jurídico da cidade, para falar com uma bem renomada advogada que me havia oferecido o emprego dos sonhos... E eu nem estava tenso! Minha felicidade ultrapassava todos os outros sentimentos, eu acho.

            Depois de subir a escadaria e tropeçar na pata de um cão sem querer, eu passei pelas portas de carvalho e me vi dentro do átrio principal do prédio. Muitas pessoas estavam sentadas em bancos estofados em volta de um enorme balcão de informações que ficava no centro do local, onde, acreditem, doze secretárias (doze!) não paravam de atender telefonemas em seus terninhos cinzentos e pretos. Cada uma delas tinha seu próprio computador em tela plana de plasma líquido onde viam todos os horários e compromissos do dia, e agendavam tudo o que era supérfluo para outras datas. Percebi que uma das secretárias logo à minha frente havia acabado de desligar o telefone e estava pedindo pra me aproximar:

            - Bom dia, sou Charlotte Casablanca, em que posso ajudar?

            - Bom dia... Hum... Meu nome é David Turner, tenho uma entrevista com a Srta. Michelle Lewis marcada para as 6:30.

                - Só um momento, Sr. Turner, vou checar – o teclado de seu computador quase não fazia ruídos quando ela digitava; ela devia ser bem familiarizada com seu cargo – Ok, Sr. Turner, acompanhe-me por favor.

                A secretária chamada Charlotte saiu de seu posto e me conduziu até um corredor lateral ao átrio do prédio, e o ruído das pessoas conversando foi ficando para trás. Nesse corredor havia três elevadores com portas de marfim escuro, com placas logo acima onde se podia ler “Premium”. Charlotte não apertou nenhum botão sequer, somente puxou a maçaneta prateada e entrou no elevador comigo logo atrás. O chão e as paredes do elevador eram revestidos por algum tipo de tapeçaria persa que devia ser muito cara. Dava pra ouvir ao fundo uma música ao estilo Lounge que criava uma atmosfera bem tranqüila.

                - É o seu primeiro dia aqui no Imperial Building, Sr. Turner? – perguntou Charlotte, com seus cabelos muito pretos e lisos caídos ao ombro.

                - Sim, estou meio empolgado, mas tranqüilo – respondi.

                - Entendo. A Srta. Michelle vai recebê-lo em seu aposento presidencial. Qualquer coisa que precisar é só me chamar, tudo bem? Hoje estarei ao seu dispor aqui no escritório.

                - Ah, claro, sem problemas. Hum... Srta. Charlotte-

                - Somente Charlotte, por favor – Cortou-me com um sorriso.

                - Pois não, Charlotte... Diga-me, como é o temperamento da Srta. Michelle? – Era uma pergunta que estava presa em minha garganta havia muito tempo – Ela tem um nome importante no meio jurídico... Não pretendo desapontá-la com algum comentário desnecessário...

                Charlotte jogou a cabeça para trás dando uma gargalhada discreta e divertida. A sua pose de secretária prestativa havia se dissipado por alguns segundos. Aproveitando o momento de descontração, eu também ri.

                - Não se preocupe Sr. Turner – disse ela ainda com um sorriso estampado no rosto – A Srta. Michelle não é um monstro de sete cabeças. Posso dizer que é a mulher mais sensata que eu já conheci desde que trabalho nesse meio. Fique tranqüilo.

                Meio sem jeito eu me recompus. Esse momento de risadas teve certo efeito sobre mim, me deixando mais tranqüilo do que eu já estava.

                - Bom, chegamos ao sétimo andar – informou-me Charlotte, novamente em sua pose de secretária prestativa – Como já disse, qualquer coisa que o senhor precisar pode mandar me chamar, ok? Siga esse corredor até o fim, é a última porta à direita. Entre sem bater.

                Assim eu me despedi de Charlotte, que voltou ao seu posto no átrio do prédio. Como ela havia dito, segui o corredor silencioso até o fim. As portas eram todas feitas do mesmo marfim escuro do elevador, e em cada uma havia uma plaquinha dourada com o nome de uma pessoa gravado. Cheguei até a última à direita (na plaquinha estava escrito Michelle Lewis, obviamente) e, hesitando, peguei na maçaneta e empurrei a porta, que me parecia mais pesada que o normal. Lá dentro encontrei uma decoração totalmente diferente do resto do prédio. O aposento era único e enorme, decorado à moda japonesa, dividido em dois pequenos “andares” que eram ligados por uma escada branca; a parede da frente era totalmente feita de vidro e dela dava-se para ver a cidade de Nova Iorque inteira. No segundo andar da suíte presidencial (e tudo era digno de possuir esse título), sentada em uma das muitas almofadas à frente de uma mesinha rente ao chão, estava Michelle Lewis.

                - Sinta-se à vontade, Sr. Turner.

                Sua voz era normal, sua expressão era tranqüila, seus cabelos dourados e ondulados lhe caiam bem, sua pele era rosada... Tudo nela me parecia normal, exceto o fato de ela estar vestida com um quimono japonês vermelho detalhado com flores brancas. Ah... E a recepção também não era das mais comuns! Eu estava esperando um escritório normal, frio, e um contrato assinado em uma mesa simples de vidro... Mas não. Eu estava no aposento presidencial de Michelle Lewis.

                - Bom dia, Srta. Lewis... Ehr... Como está? – perguntei, meio sem jeito.

                - Ótima – respondeu ela com um sorriso – Não se sinta acanhado, Sr. David. Venha sentar-se aqui na mesa, um ótimo café da manhã nos aguarda.

                Não tinha como não me sentir “acanhado” naquela situação. A mulher com quem eu estava prestes a tomar café da manhã era minha futura superior, isso se eu ainda fosse sair empregado desse prédio. Tentei me expressar o mais tranqüilo possível, tirei meus sapatos à frente da escadinha e subi ao outro patamar, sentando-se à sua frente.

                - Eu sei que tudo isso pode lhe parecer um tanto estranho, Sr. David, mas gosto de me sentir à vontade quando vou conhecer o novo advogado da Lewis & Lewis, e gosto que ele se sinta da mesma forma. Depois desse nosso primeiro contato eu mesma irei lhe mostrar sua nova sala, e posso lhe garantir que eu estarei vestida normalmente! – ela estava rindo, isso me deixou mais tranqüilo diante àquela situação.

                - O que está achando do Imperial Building? – ela perguntou-me.

                 - Bom, tudo me parece muito correto. As pessoas parecem sentir-se à vontade na escadaria, e as secretárias aparentam ser bem prestativas... Fora o luxo da decoração... Estou adorando.

                - Que bom! Pôde conhecer Charlotte hoje, não?

                 - Sim, ela me conduziu até aqui. Muito simpática.

                - É o mínimo que eu espero de todas as pessoas que vivem aqui dentro... Afinal, ninguém gosta de gente antipática, certo?

                Expressei um sorriso encabulado.

                - Vi no seu arquivo que você veio da empresa Notes & Justice, de Oxford. Gostava de lá, Sr, Turner?

                - É uma empresa boa, me oferecia todos os recursos que eu precisava. Ganhei cinco casos importantes enquanto estava com eles. Mas ouvi dizer que estão à beira da falência...

                - Sim... Eu conheço o dono, Martin Jackson. Não é uma boa pessoa... Mas é um ótimo advogado. Vocês ganharam o caso de Martha Judith em 2006, não foi? Eu não achava que esse caso tinha alguma esperança. Isso que me fez abrir os olhos e te observar, Sr. Turner, você fez um trabalho muito profissional e digno ali, por isso o queremos na Lewis & Lewis.

                - Eu fico muito agradecido, Srta. Lewis. Foi realmente um caso muito difícil.

                - Espero que aqui você faça o mesmo. Seguimos a teoria de que temos que arriscar perder algumas coisas para conseguir a confiança das pessoas, e assim ganhar os casos. Os advogados da Lewis & Lewis são muito competentes, e vejo que o senhor também é. Assim, tenho o prazer de te dizer que o senhor está em nossa equipe oficialmente a partir de hoje.

                - Muito obrigado, Srta. Lewis. Tenho certeza de que serei capaz de seguir à risca as tradições da Lewis & Lewis e ser um ótimo advogado para vocês.

                - Um ótimo advogado para nós, Sr. Turner. Você é parte da família agora! – Michelle estava rindo novamente. Era incrível como uma mulher com um nome tão poderoso pudesse me receber em condições “casuais” em seu próprio aposento. É claro que à maneira dela, mas era tudo muito seguro e confortável.

                - Começo hoje? – perguntei.

                 - Absolutamente. Espere-me aqui mesmo, irei me trocar.

                Dizendo isso ela levantou-se e desapareceu por entre uma porta que dava a um pequeno quarto ao lado. Esperei por pouco tempo, imaginando onde estaria o café da manhã que supostamente deveríamos ter tomado, como ela mesma havia dito. Quando Michelle Lewis voltou novamente ao aposento, parecia totalmente diferente: parte de seu cabelo estava preso por uma presilha atrás da cabeça, enquanto o resto escorria para seus ombros, e agora estava vestida em um terninho tweet, como uma advogada normal.

                - Pareço mais normal agora, não? – e deu uma risadinha, sem graça – Desculpe-me, Sr. Turner, mas até uma mulher de negócios como eu, tem seus pequenos devaneios. Vamos, lhe mostrarei sua sala.

                Coloquei meus sapatos e ambos saímos para o corredor, indo em direção ao elevador de antes. Como Charlotte havia feito, Michelle não apertou nenhum botão, somente puxou a barra de metal da porta do elevador e entrou. A música de fundo ainda era a mesma. Esperamos por um momento até o elevador parar na marcação do 13º andar.

                - Sr. Turner, tenho um pequeno serviço para fazer neste andar, o senhor me espera aqui? – disse Michelle.

                - Claro, sem problemas. – respondi.

                Ela saiu andando com seu sapato de salto agulha vermelho pelo corredor, que era exatamente igual ao outro em que estávamos antes, exceto pelo detalhe de que este não tinha nenhum tipo de iluminação e nem janelas, e possuía uma porta a mais ao fundo, por onde Michelle entrou. O corredor cheirava mofo, como se ninguém fosse até ali com muita freqüência. Enquanto a esperava com a mão segurando a porta do elevador para que ela não se fechasse, pude ver dois vultos saindo de uma das portas laterais do corredor e entrando em outra logo á frente. Eles pareciam carregar alguma coisa, algum tipo de maca... Mas passaram rápido demais para que eu conseguisse ver alguma coisa naquele escuro. Um tempo depois Michelle saiu das trevas pela porta onde havia entrado, gritando alguma coisa para alguém que se encontrava dentro daquele aposento:

                - Eu já lhe disse que não podemos!

                - Michelle, saia daqui! – gritou a voz de um homem – Não queremos prejuízos pra você e sua empresa! Só faça o que eu lhe peço, pelo menos uma vez na vida!

                - Se você não me der ouvidos verá do que eu sou capaz, entendeu? – gritou ela em resposta. Ela bateu a porta com força e se virou em direção ao elevador. Nesse momento ela pareceu se lembrar de que eu ainda a esperava, e se recompondo da aparente “discussão”, disse-me:

                - Sr. Turner, esqueça o que viu ou ouviu aqui, tudo bem? Não quero lhe causar problemas logo no seu primeiro dia.

                - Hum... Tudo bem, Srta. Lewis. – respondi. Eu não estava muito convicto de que iria esquecer essa cena estranha, mas expressei certa seriedade que pareceu convencê-la.

                - Agora vamos à sua sala, por favor.