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- Mamãe... Já
lhe disse que estou bem! Pare de se preocupar!
Olá... Sou Abigail Bogner, mais conhecida como Abbie pelos meu
amigos. Foi destinado a mim um dever, uma tarefa: relatar um
incidente que aconteceu comigo no início desse ano. Adoro escrever!
Estou grata àquele que me deu essa tarefa. Meu diário já não me é
mais necessário, não adianta só eu escrever e escrever, ele nunca me
dará uma resposta. Reclamei disso pra minha mãe e ela me indicou um
psicólogo. A princípio estranhei, afinal não estou louca. Acredito
mesmo que o diário não fala! Depois percebi que falar com um
especialista não me faria mal, ele me daria as respostas que eu
queria! Não? Pois é, fui procurar o tal de Dr. Gesell Toshimaru,
amigo de longa data de minha mãe. Você não imagina o que aconteceu
nessa nossa primeira seção.
A clínica do Dr. ficava há três quadras da minha casa em
Berlim, na Alemanha. Preciso dizer que há cinco anos eu perdi minha
visão em um acidente, por isso mamãe ia comigo a qualquer lugar que
fosse, e ia me descrevendo tudo. Dizia ela que o prédio era muito
bonito e muito grande também, chamava-se Debis Tower. Entramos, e o
porteiro nos encaminhou até o elevador, onde apertamos o botão que
nos levaria ao 15º andar. Mamãe disse que o elevador era todo
espelhado por dentro, então resolvi perguntar-lhe como estava minha
aparência naquele dia. Meu cabelo não estava ajeitado como deveria,
e pude perceber que não estava mais tão loiro como antigamente,
mamãe não me enganava. É, eu estava envelhecendo! O azul dos meus
olhos não refletia mais o brilho do lago Edersee, como antes dizia
meu antigo marido. Mas enfim, ainda dizem que sou bonita, e o Dr.
Gesell há de concordar. Quando entrei na sala de espera, mamãe disse
que a secretária me olhou torto, de cima à baixo, como se houvesse
algo em mim que ela não possuísse. Me senti a Lady Diana! Logo o Dr.
me atendeu e pude me esquivar daqueles olhares fulminantes.
Dentro da sala havia uma garotinha sentada na poltrona que
ficava á frente da formosa mesa do Dr. Gesell. Ela era incrivelmente
magnifica, dizia mamãe, e era japonesa. Adoro traços orientais!
Usava um lindo vestidinho branco de seda com o cabelo preso em rabo
de cavalo por uma fita também branca. Ela tinha uma ternura que
roubava toda a cena, mas não deixamos de reparar na elegância do Dr.
Toshimaru: usava um lindo Armani branco. Eu podia sentir que alí
estavam dois descendentes de alguma rica familia do Japão. Será que
possuiam mansões na Alemanha? Adoraria conhecê-las. Mas estava eu
pronta para uma consulta com, o que aprecia ser, um dos melhores
psicólogos do país, e as mansões me fugiram da mente. Antes que eu
disesse alguma coisa, ele se pronunciou:
- Filha, vá para o seu aposento e me espere até terminar essa
seção com a Srta. Bogner?
- Claro papai. Posso vir quando souber a hora? - perguntou a
garotinha.
- Sim, deve vir. Não podemos perder essa oportunidade.
Ouvi passos leves que iam em direção a uma outra porta no
aposento. Esse foi um dos vários momentos que eu realmente desejei
ter minha visão de volta, queria ver a ternura tão magnifica daquela
criança. Mamãe e o Dr. Gesell trocaram cumprimentos e comentários
sobre o quão haviam ficado sem se encontrar em três anos. mamãe não
sabia, mas eu sempre suspeitei que os dois pudessem ter algum caso
secreto, porém não poria minha mão em assuntos que não me dizem
respeito. Mamãe podia sair com quem ela quisesse, já fazia mais de
quinze anos que papai havia falecido. Sentei na poltrona que antes
estava a garotinha, filha do doutor, e este pediu educadamente para
que minha mãe saísse da sala para que pudéssemos ter uma conversa
mais privada.
- Como você está, querida? - ele perguntou.
- Estou perfeitamente bem Dr. Gesell. Mamãe insistiu que eu
deveria vir falar com o senhor porque eu falei que meu diário não
podia conversar comigo. Você não concorda com isso Dr.?
- Claro que concordo. Diários são peças exclusivas para a
escrita. Como você escreve Srta. Bogner?
- Papai me comprou um diário especial em sua viagem pra Madrid.
Na verdade é como um gravador de voz, eu falo tudo o que me vem à
mente, mas ele nunca me responde. Costumo dizer que eu 'escrevo', já
que é um diário.
- Mas ainda pode ser um diário, mesmo que falado. Você se sente
à vontade com isso?
- Completamente! Adoro escrever do meu jeito particular. Está
acontecendo alguma coisa?
Eu ouvia passos, era o mesmo som de antes, igual quando a
garotinha saiu do aposento. Logo depois ouvi algum objeto caindo no
chão. Desejava ter mamãe ao meu lado para me dizer o que estava
acontecendo, e isso me deixava triste, pois eram nesse momentos que
eu percebia que era totalmente dependente de minha mãe. Enfim,
tentei observar tudo do meu jeito. A garotinha realmente havia
voltado a sala onde estávamos, eu podia senti-la na sala. Mas ainda
assim o Dr. Gesell continuou:
- Abbie, seu pai lhe contou sobre o Limiar?
- Limiar? Não! O que é Limiar? - perguntei.
- Seu pai foi um grande pesquisador, Abbie. Não sabia?
- Um pesquisador? Oras! Eu me lembro que ele vivia fugindo dos
encontros de domingo, e sempre haviam vários papéis estranhos na
mesa dele... Mas
não, não... meu pai nunca me disse isso. Eu deveria imaginar! Como
nunca percebi?
- Moça... eu não estou te entendendo... - Uma segunda voz
apareceu naquela sala.
- Dr. Gesell? Não é o senhor? - Assustei! Eu tinha certeza que
só estavamos em três na sala.
- Ges- Não... Moça... Você não percebe o que está acontecendo
aqui? Onde estamos!?
- Não estou na clínica do Dr. Gesell?! - perguntei. Estava
ficando meio desesperada.
- Não!!! Estamos no meio do nada moç- - A voz do homem foi
cortada pelo silêncio. Odeio admitir que na minha vida só escuto
vozes, e dessa vez uma terceira voz apareceu. Não era a do Dr.
Gesell e muito menos do homem que ha pouco havia falado comigo. Essa
era diferente. Era feminina, doce e relaxante. Dizia:
- Abigail Bogner, a partir de hoje, desse momento, serei seu
anjo da guarda. Te guiarei por onde você for, te direi tudo o que
for preciso, serei teus olhos, tua alma.
- Anjo da guarda? Como você se chama, Sr. Anjo?
- Meu nome agora não é importante. Você saberá na hora
certa. Minha tarefa agora é ser teus olhos. Estamos em um enorme
campo gramado chamado Amigdala. Aqui há uma linha de trem que leva à
uma grande cidade, onde seu destino será traçado. No momento conosco
há mais três pessoas e quatro entidades celestinas que trouxeram
vocês até nós. O destino das quatro pequenas entidades já foi
traçado e está prestes a terminar. A pequena garota que você sentiu
na sala do Sr. Gesell é uma delas, e sua hora chegou. Seu tempo
acabou.
Pude ouvir o barulho de um trem andando rapidamente sobre
trilhos. Realmente o anjo tinha razão, ele estava fazendo o papel de
minha mãe naquele momento, e com muito mais precisão e informações.
No segundo em que ele me disse que a pequena garotinha tinha seu
destino traçado e que este estava prestes a se acabar, minha única
reação foi dizer um alto e sonoro "Não!", e comigo percebi que os
outros naquele local também gritaram. Diferente de mim, eles puderam
ver o que aconteceu. E isso eu nem imaginava. Foi um momento em que,
tristemente, agradeci por não possuir mais minha visão.
Segundos depois do ocorrido com a garotinha, pude perceber que
o trem havia parado bem perto de nós. Foi quando o anjo voltou a
falar:
- Agora o Trem do Destino parou em frente à nós. Podemos
entrar agora, para seguirmos o nosso destino, Abbie. Vamos? Posso te
guiar adequadamente, mas você precisará ter eterna confiança em mim.
Podemos seguir juntas até o infinito. Você confia em mim?
- Acredito que posso confiar em um anjo, se você realmente for
um. Como posso saber que você existe? Me faça sentir algo. Me dê uma
prova.
- Como quiser, senhora. Teus pedidos serão completamente
atendidos. Sou tua alma. Consegue sentir essa felicidade? Digo que
ninguém nunca sentiu algo assim em sua dimensão. Me diga, como é?
Naquele momento pude sentir algo realmente extraordinário. O
tempo parecia ter parado, e tudo o que era preocupação em minha vida
parecia ter desaparecido. Estava sentindo como se estivesse acabado
de satirfazer a fome de todos que a possuíam, matar a sede de todos
que necessitavam de água. Podia sentir a paz eterna que muitos
esperavam, e eu sabia que aquilo era paz. Eu podia apenas sentir. O
anjo me guiou até o trem, e pela primeira vez desde que perdi a
visão pude sentir que havia ganho algo novamente, estava me sentindo
com novos olhos. Pensava se os outros alí comigo podiam ver o anjo
que estava ao meu lado agora, mas nenhum deles parecia saber de
alguma coisa, estavam calados. A única voz que ouvi depois disso
parecia ser a do maquinista do trem, como me disse o anjo.
-
Entrem.
Não posso esperar muito.
Dentro do trem o anjo me disse:
- Se quiser, durma. A viagem será longa, mas não cansativa.
O Limiar nos aguarda, e dele não poderemos passar sem estarmos
preparados. Durma, meu anjo, durma.
E então eu dormi.
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