Threshold 03 - Third Contact: Abbie Bogner
 

     - Mamãe... Já lhe disse que estou bem! Pare de se preocupar!

     Olá... Sou Abigail Bogner, mais conhecida como Abbie pelos meu amigos. Foi destinado a mim um dever, uma tarefa: relatar um incidente que aconteceu comigo no início desse ano. Adoro escrever! Estou grata àquele que me deu essa tarefa. Meu diário já não me é mais necessário, não adianta só eu escrever e escrever, ele nunca me dará uma resposta. Reclamei disso pra minha mãe e ela me indicou um psicólogo. A princípio estranhei, afinal não estou louca. Acredito mesmo que o diário não fala! Depois percebi que falar com um especialista não me faria mal, ele me daria as respostas que eu queria! Não? Pois é, fui procurar o tal de Dr. Gesell Toshimaru, amigo de longa data de minha mãe. Você não imagina o que aconteceu nessa nossa primeira seção.

      A clínica do Dr. ficava há três quadras da minha casa em Berlim, na Alemanha. Preciso dizer que há cinco anos eu perdi minha visão em um acidente, por isso mamãe ia comigo a qualquer lugar que fosse, e ia me descrevendo tudo. Dizia ela que o prédio era muito bonito e muito grande também, chamava-se Debis Tower. Entramos, e o porteiro nos encaminhou até o elevador, onde apertamos o botão que nos levaria ao 15º andar. Mamãe disse que o elevador era todo espelhado por dentro, então resolvi perguntar-lhe como estava minha aparência naquele dia. Meu cabelo não estava ajeitado como deveria, e pude perceber que não estava mais tão loiro como antigamente, mamãe não me enganava. É, eu estava envelhecendo! O azul dos meus olhos não refletia mais o brilho do lago Edersee, como antes dizia meu antigo marido. Mas enfim, ainda dizem que sou bonita, e o Dr. Gesell há de concordar. Quando entrei na sala de espera, mamãe disse que a secretária me olhou torto, de cima à baixo, como se houvesse algo em mim que ela não possuísse. Me senti a Lady Diana! Logo o Dr. me atendeu e pude me esquivar daqueles olhares fulminantes.

     Dentro da sala havia uma garotinha sentada na poltrona que ficava á frente da formosa mesa do Dr. Gesell. Ela era incrivelmente magnifica, dizia mamãe, e era japonesa. Adoro traços orientais! Usava um lindo vestidinho branco de seda com o cabelo preso em rabo de cavalo por uma fita também branca. Ela tinha uma ternura que roubava toda a cena, mas não deixamos de reparar na elegância do Dr. Toshimaru: usava um lindo Armani branco. Eu podia sentir que alí estavam dois descendentes de alguma rica familia do Japão. Será que possuiam mansões na Alemanha? Adoraria conhecê-las. Mas estava eu pronta para uma consulta com, o que aprecia ser, um dos melhores psicólogos do país, e as mansões me fugiram da mente. Antes que eu disesse alguma coisa, ele se pronunciou:

     - Filha, vá para o seu aposento e me espere até terminar essa seção com a Srta. Bogner?

     - Claro papai. Posso vir quando souber a hora? - perguntou a garotinha.

     - Sim, deve vir. Não podemos perder essa oportunidade.

     Ouvi passos leves que iam em direção a uma outra porta no aposento. Esse foi um dos vários momentos que eu realmente desejei ter minha visão de volta, queria ver a ternura tão magnifica daquela criança. Mamãe e o Dr. Gesell trocaram cumprimentos e comentários sobre o quão haviam ficado sem se encontrar em três anos. mamãe não sabia, mas eu sempre suspeitei que os dois pudessem ter algum caso secreto, porém não poria minha mão em assuntos que não me dizem respeito. Mamãe podia sair com quem ela quisesse, já fazia mais de quinze anos que papai havia falecido. Sentei na poltrona que antes estava a garotinha, filha do doutor, e este pediu educadamente para que minha mãe saísse da sala para que pudéssemos ter uma conversa mais privada.

     - Como você está, querida? - ele perguntou.

     - Estou perfeitamente bem Dr. Gesell. Mamãe insistiu que eu deveria vir falar com o senhor porque eu falei que meu diário não podia conversar comigo. Você não concorda com isso Dr.?

     - Claro que concordo. Diários são peças exclusivas para a escrita. Como você escreve Srta. Bogner?

     - Papai me comprou um diário especial em sua viagem pra Madrid. Na verdade é como um gravador de voz, eu falo tudo o que me vem à mente, mas ele nunca me responde. Costumo dizer que eu 'escrevo', já que é um diário.

     - Mas ainda pode ser um diário, mesmo que falado. Você se sente à vontade com isso?

     - Completamente! Adoro escrever do meu jeito particular. Está acontecendo alguma coisa?

     Eu ouvia passos, era o mesmo som de antes, igual quando a garotinha saiu do aposento. Logo depois ouvi algum objeto caindo no chão. Desejava ter mamãe ao meu lado para me dizer o que estava acontecendo, e isso me deixava triste, pois eram nesse momentos que eu percebia que era totalmente dependente de minha mãe. Enfim, tentei observar tudo do meu jeito. A garotinha realmente havia voltado a sala onde estávamos, eu podia senti-la na sala. Mas ainda assim o Dr. Gesell continuou:

     - Abbie, seu pai lhe contou sobre o Limiar?

     - Limiar? Não! O que é Limiar? - perguntei.

     - Seu pai foi um grande pesquisador, Abbie. Não sabia?

     - Um pesquisador? Oras! Eu me lembro que ele vivia fugindo dos encontros de domingo, e sempre haviam vários papéis estranhos na mesa dele... Mas
não, não... meu pai nunca me disse isso. Eu deveria imaginar! Como nunca percebi?

     - Moça... eu não estou te entendendo... - Uma segunda voz apareceu naquela sala.

     - Dr. Gesell? Não é o senhor? - Assustei! Eu tinha certeza que só estavamos em três na sala.

     - Ges- Não... Moça... Você não percebe o que está acontecendo aqui? Onde estamos!?

     - Não estou na clínica do Dr. Gesell?! - perguntei. Estava ficando meio desesperada.

     - Não!!! Estamos no meio do nada moç- - A voz do homem foi cortada pelo silêncio. Odeio admitir que na minha vida só escuto vozes, e dessa vez uma terceira voz apareceu. Não era a do Dr. Gesell e muito menos do homem que ha pouco havia falado comigo. Essa era diferente. Era feminina, doce e relaxante. Dizia:

     - Abigail Bogner, a partir de hoje, desse momento, serei seu anjo da guarda. Te guiarei por onde você for, te direi tudo o que for preciso, serei teus olhos, tua alma.

     - Anjo da guarda? Como você se chama, Sr. Anjo?

     - Meu nome agora não é importante. Você saberá na hora certa. Minha tarefa agora é ser teus olhos. Estamos em um enorme campo gramado chamado Amigdala. Aqui há uma linha de trem que leva à uma grande cidade, onde seu destino será traçado. No momento conosco há mais três pessoas e quatro entidades celestinas que trouxeram vocês até nós. O destino das quatro pequenas entidades já foi traçado e está prestes a terminar. A pequena garota que você sentiu na sala do Sr. Gesell é uma delas, e sua hora chegou. Seu tempo acabou.

     Pude ouvir o barulho de um trem andando rapidamente sobre trilhos. Realmente o anjo tinha razão, ele estava fazendo o papel de minha mãe naquele momento, e com muito mais precisão e informações. No segundo em que ele me disse que a pequena garotinha tinha seu destino traçado e que este estava prestes a se acabar, minha única reação foi dizer um alto e sonoro "Não!", e comigo percebi que os outros naquele local também gritaram. Diferente de mim, eles puderam ver o que aconteceu. E isso eu nem imaginava. Foi um momento em que, tristemente, agradeci por não possuir mais minha visão.

     Segundos depois do ocorrido com a garotinha, pude perceber que o trem havia parado bem perto de nós. Foi quando o anjo voltou a falar:

     - Agora o Trem do Destino parou em frente à nós. Podemos entrar agora, para seguirmos o nosso destino, Abbie. Vamos? Posso te guiar adequadamente, mas você precisará ter eterna confiança em mim. Podemos seguir juntas até o infinito. Você confia em mim?

     - Acredito que posso confiar em um anjo, se você realmente for um. Como posso saber que você existe? Me faça sentir algo. Me dê uma prova.

     - Como quiser, senhora. Teus pedidos serão completamente atendidos. Sou tua alma. Consegue sentir essa felicidade? Digo que ninguém nunca sentiu algo assim em sua dimensão. Me diga, como é?

     Naquele momento pude sentir algo realmente extraordinário. O tempo parecia ter parado, e tudo o que era preocupação em minha vida parecia ter desaparecido. Estava sentindo como se estivesse acabado de satirfazer a fome de todos que a possuíam, matar a sede de todos que necessitavam de água. Podia sentir a paz eterna que muitos esperavam, e eu sabia que aquilo era paz. Eu podia apenas sentir. O anjo me guiou até o trem, e pela primeira vez desde que perdi a visão pude sentir que havia ganho algo novamente, estava me sentindo com novos olhos. Pensava se os outros alí comigo podiam ver o anjo que estava ao meu lado agora, mas nenhum deles parecia saber de alguma coisa, estavam calados. A única voz que ouvi depois disso parecia ser a do maquinista do trem, como me disse o anjo.

     - Entrem. Não posso esperar muito.

     Dentro do trem o anjo me disse:

     - Se quiser, durma. A viagem será longa, mas não cansativa. O Limiar nos aguarda, e dele não poderemos passar sem estarmos preparados. Durma, meu anjo, durma.

     E então eu dormi.