Transcend 02 - The Palace
 

                Eras e eras são necessárias para corrigir problemas em qualquer lugar. Um erro que se instala em determinado tempo e espaço trás consigo uma carga de desgastes e acarreta uma série de problemas menores, que se agravam conforme as décadas passam. Se um problema demora tanto para ser fixado e ajeitado, por que então é criado? Ninguém possui tal resposta. Seres se submetem a tantas tarefas mal executadas e mal concluídas para não encararem a verdade sobre si mesmos. Para isso foi criado o sistema de exclusão mais eficiente de todos, que extermina de forma indeterminada todos esses seres cegos por sangue. Tal sistema era denominado Sistema Nefrarion de Extermínio Múltiplo, mais conhecido somente como Nefrarion.

                Ninguém, além dos três Deuses de Daeva, sabia como manejar o Sistema. Muitos homens e mulheres já passaram pelas “mãos” sanguinárias do Nefrarion, mas ninguém nunca voltou para contar como é a sensação. A única coisa que todos em Daeva sabiam é o local onde era armazenado o Sistema: no sétimo subsolo do Palácio. O sétimo subsolo era temido por qualquer ser vivente habitante de Catarsis, a cidade-pilar de Daeva. Em Catarsis, toda e qualquer ação pecaminosa era tomada como crime; um simples furto ou insulto já poderia ser considerado razão suficiente para levar qualquer indivíduo para o Nefrarion. Devido a essa rígida regra, era quase impossível encontrar desarmonia em Catarsis.

                O Palácio de Catarsis era constituído de somente três enormes torres que se estendiam além das nuvens, até onde os olhos não conseguiam alcançar. Nessas torres viviam os três Deuses de Daeva, Krrols, Budhi e Nya, a única mulher. Todos os problemas pelos quais Daeva passava, teria de ser discutido por eles antes de alguém tomar qualquer decisão. Os Deuses eram os pilares do mundo, se vestiam com todo o luxo que era possível, e não economizavam nos detalhes. A Deusa Nya era muito vaidosa, usava um longo vestido branco totalmente ornamentado com rendas e detalhes, todos também em branco. Sob os longos cabelos castanhos levava a fina e delicada coroa de prata que lhe concedia os poderes políticos de um Deus. Já o Deus Krrols, o mais imponente, vestia sua tão renomada túnica de prata que foi conquistada depois de uma longa guerra que lhe concebeu o direito de ser Deus. Não menos importante, o Deus Budhi não gostava muito de regalias, e se sentia à vontade com suas vestes negras de seda, e seus cabelos negros como a noite realçavam a palidez de sua pele. Além da trinca de assas brancas que eles tinham nas costas, cada um possuía uma Lança Sagrada, que era centro de todo o poder dos Deuses.

Diariamente eles discutiam e procuravam soluções para todos os problemas de Daeva dentro do Salão no centro do Palácio, e era nesse local, em um dia agitado, que um visitante tinha entrado gritando:

                - Eles o acharam! Acharam!!!

                - Oi? – perguntou o Deus Krrols – Kalisto, especifique.

                - Eles o acharam, majestade! O Renegado! – a euforia do homem chamado Kalisto era tão grande, que mal conseguia se explicar. Vendo a expressão de reprovação na face do Deus Krrols, o homem se ajoelhou diante dos Deuses, respirou fundo e prosseguiu – Os responsáveis por Hista descobriram uma forma de rastrear o Renegado, como vocês haviam pedido.

                - Kalisto, - começou a Deusa Nya – essa questão é muito séria. Você tem certeza de que isso é confirmado?

                - Sim, majestade. Eles conseguiram.

                - E onde ele se encontra? O Renegado. – perguntou Deus Budhi, o Terceiro.

                - Essa é a questão mais curiosa, senhor. A dimensão em que ele está é muito primitiva, e nunca foi rastreada antes. O local chama-se Terra, e está na 3º dimensão.

                Os Deuses se entreolharam. De fato, a exploração de uma dimensão primitiva traria grandes perigos para Daeva. Por ser desconhecido, o local poderia esconder ameaças invisíveis e inimagináveis.

                - Obrigada pela informação, Kalisto. – agradeceu Nya – Vamos ver o que podemos fazer sobre isso. Diga para os responsáveis por Hista que não tentem nenhum contato com o Renegado. Queremos um perfil completo sobre a vida dele nesse local, dados pessoais, rotina e se ele apresenta alguma habilidade antiga que tenhamos conhecimento.

                - Entendido, majestade.

                Dito isso, o robusto Kalisto saiu do Salão do Palácio, seguido por uma mulher que tinha o esperado o tempo todo em frente à porta do aposento. As portas do Salão foram fechadas pelos soldados reais que ficavam de guarda no palácio, e os Deuses se colocaram a discutir a situação. Nya começou:

                - Irmãos, a situação é crítica. Sempre soubemos que o Nefrarion havia cometido um erro ao deportar o Renegado, agora é hora de descobrirmos o que deu errado.

                - Como poderemos descobrir o que deu errado? –perguntou Budhi – A alma verdadeira do Renegado provavelmente não está acordada dentro do recipiente que é o corpo desse homem que Hista encontrou nessa Terra. Será impossível termos provas de alguma coisa.

                - Não acho isso, caro Budhi – disse o Deus Krrols – Deve existir alguma forma de acordar a alma adormecida do Renegado. Só ele pode nos dizer o que aconteceu com o Nefrarion naquela execução, mesmo que por meio de tortura.

                - Porém, irmãos, não podem ser esquecidos todos os detalhes que nos cercaram até aqui. Estamos mantendo um prisioneiro que pode realmente não ser quem pensamos; depois desse rastreamento nada vai ser o que parece. Temos que ter certeza de tudo antes de decidirmos qualquer coisa em relação ao Renegado, para não cometermos erros novamente.

                - Concordo, irmã. Aposto que Krrols também apóia a colocação, não?

                - Claro. Iremos encontrar um meio de descobrir a verdade, para termos certeza do que faremos a partir daqui. Por enquanto podemos manter o prisioneiro no lugar dele. Por mais que ele seja inocente a essa altura, não devemos tomar decisões precipitadas, como disse nossa irmã Nya.

                - Então por hoje isso está encerrado. Vamos esperar respostas de Hista. – dizendo isso, Nya chamou um dos soldados reais que estavam guardando a porta do Salão.

                - Pois não, majestade.

                 - Amigo, – Ela arqueou uma de suas asas para frente do corpo e tocou uma das penas, que imediatamente brilhou e se destacou das demais. Entregando a pena solta ao soldado, ela continuou – mande alguém enviar esta informação ao prisioneiro no quarto subsolo.

                O soldado seguiu o seu destino, e os três Deuses de Daeva continuaram em seus tronos sagrados, discutindo o que fariam pelo resto do dia.